Sua empresa pode ser tão tóxica quanto Chernobyl – e eu não estou falando da radiação.

Só agora terminei de assistir Chernobyl, a primorosa minissérie da HBO que reconstrói, em detalhes, o maior desastre nuclear da história.

(Este texto contém alguns spoilers mas, como é uma história real, seria como dizer que o Titanic afundou antes de você assistir ao filme.)

Foto promocional da minissérie Chernobyl, da HBO. A imagem mostra uma pessoa com uma roupa protetora contra radiação, num tecido bem grosso de cor cobre, óculos de proteção e máscara anti-gases. Ela tem um olhar assustado e olha diretamente para a câmera.

Quem fica pra limpar toda a sujeira depois?

Bem resumidamente, a explosão no reator 04 acontece, ironicamente, durante um teste de segurança que era, na verdade, uma armadilha mortal.

Verdades Inconvenientes

Ocorre que mais de uma década antes do acidente, um estudo já havia detectado que os mecanismos de emergência teriam sido mal desenhados e que, muito provavelmente, o seu acionamento causaria uma catástrofe – em vez de evitá-la.

Corta para o cenário político da época: a antiga União Soviética funcionava sob uma estrutura extremamente rígida e controlada. A comunicação era na base do papel e telefone (quando tinha), o que aumentava ainda mais o peso da burocracia.

A mão de ferro da ditadura determinava o que podia e o que não podia ser dito – e muitas vozes eram caladas na base do pelotão de fuzilamento, de maneira sumária e, claro, irrevogável.

Em várias passagens fica claro, por exemplo, que proteger o modelo de vida soviético é mais importante do que proteger vidas, que manter-se no poder é mais importante do que manter o bem-estar do povo, e que a hierarquia é mais importante do que o conhecimento.

É por isso que o estudo que apontava as falhas no mecanismo de emergência das usinas – o mesmo de pelo menos uma dúzia de outras instalações – foi engavetado e seu autor relegado ao ostracismo.

Dourando a pílula

Chega a ser aflitivo assistir às primeiras reuniões em que os chefões da usina diziam que estava tudo bem, que não houve dano ao reator e que tudo não passava de uma bobagem rotineira. Ninguém queria dar a má notícia aos superiores.

— Ah, os medidores de radiação estavam marcando apenas 3,6 Roentgen*.

Sim, claro. Porque este era o limite máximo do medidor que eles tinham. (É tipo medir a temperatura do forno com um termômetro para febre.) O medidor bom, que alcançava escalas maiores, ficava trancado numa sala, e ninguém tinha acesso à chave.

E aí eles diziam que não era para se preocupar. O mais importante era que o número estivesse dentro do aceitável. O menos importante era o número estar completamente errado. (Quando a radiação foi medida de verdade, estava acima de 15.000 Roentgen – uma dose letal em apenas 1,4 segundos.)

Quantas empresas são assim?

  • Todo mundo com medo de dar más notícias para o chefe, e aí vão filtrando as coisas ruins, exagerando as coisas boas até entregar uma flor ao CEO?
  • Chefes dando carteiradas para impor suas crenças e vontades, criando um clima de medo e terror, mas quando algo dá errado, faz de tudo para se livrar da culpa?
  • Gerentes e Analistas escolhendo o número mais bonito para mostrar, mesmo que pinte um cenário completamente diferente do real?

E aí? Você trabalha em Chernobyl?

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*Que seria equivalente a 400 exames de raios-x.