Você já mentiu em uma entrevista de emprego? E numa conversa com um fornecedor, já deu uma exagerada nos objetivos da sua empresa? Já levou material de escritório para casa ou imprimiu trabalho da faculdade na firma? Tem gatonet em casa ou já baixou série no torrent? Já sofreu por algum desses dilemas éticos?

Muita gente jura de pés juntos que jamais cometeu – ou cometeria – qualquer desses pecados ou, se cometeu, tem uma justificativa na ponta da língua, pra aliviar a culpa.

Uma mão cheia de espinhos próxima a outra mão, com alguns ferimentos provocados pelos espinhos da primeira.

A mão que ajuda é a mesma que fere | FOTO: Anna Shevchuk, via Pexels

Desde que li O Efeito Lúcifer, de Phil Zimbardo, percebi que nosso comportamento tem muita influência do contexto, da situação. E alguns elementos podem ludibriar nossas convicções e atrapalhar nossas intenções. Por exemplo:

Incentivos e Oportunidades

Algumas decisões nossas dependem dos incentivos por trás delas. Se aquele saving é exatamente o que falta para bater sua meta – e ganhar seu bônus, ou manter seu emprego – pode ser que você exagere um pouco na proposta do concorrente (que talvez nem exista).

Na mesma linha, é muito fácil dizer que jamais ficaria com algo que não é seu, se nunca caiu na sua mão algo de valor – ou de muito valor – que não é seu. Todo mundo jura que devolveria o pix de R$ 5 mil que caiu na sua conta. Mas já caiu alguma vez? E de R$ 5 milhões?

No instigante A (honesta) Verdade Sobre a Desonestidade, Dan Ariely explica que a gente não põe o cadeado na bicicleta para evitar o ladrão. (Se o ladrão quiser, ele vai roubar a sua bicicleta, com ou sem cadeado.) O cadeado serve para a pessoa honesta não se sentir tentada a levar a sua bicicleta só porque ela está ali, dando mole.

Sim, é o velho ditado “A ocasião faz o ladrão”.

Desconfiar do Desconfiado

Você já negociou com alguém de desconfia de tudo o que você diz? Que acha que qualquer oportunidade que você tiver, você vai dar um balão nele? Já ouviu alguém falando de um golpe que nem passaria pela sua cabeça?

Quando o ambiente é impregnado de desconfiança, a impressão que dá é que a desonestidade é a regra. Na década de 1970, o economista americano George Akerlof publicou um artigo seminal mostrando como, em determinados mercados, a desonestidade simplesmente elimina os concorrentes honestos.

O Pilantra Sem Opção

Nesta mesma linha, alguns negociadores juram que se você não “jogar o jogo,” você está fora. Justificam sua própria desonestidade dizendo que, se não for daquele jeito, não é de jeito nenhum.

Quando não enxergam alternativas, criam seu mundo paralelo onde sua oferta ganha novas cores, e seu discurso adquire um brilho todo especial. É aqui que contratantes inflam o tamanho da oportunidade e murcham a quantidade de horas que o projeto deve consumir. E só quando o acordo é fechado é que o fornecedor percebe a realidade desbotada.

Também é aqui que o desonesto culpa o “sistema,” porque ele impõe regras que, na prática, são impossíveis de seguir.

A Vítima Culpada ou Invisível

É a desculpa favorita de quem sonega imposto ou pirateia streaming, por exemplo: a vítima é malvadona ou não vai nem sentir cócegas.

Quando você não vê o efeito da sua mentira, ou não há uma pessoa específica para sentir o golpe, parece que nada aconteceu. Crimes sem vítima não existem.

Toda e qualquer mentira faz uma vítima, não importa o malabarismo que a parte que ofende use para se justificar. A grande diferença está na proximidade entre a vítima e o ofensor. Mais ainda: se é possível identificar a vítima ou não.

O cerne da questão é que ser desonesto economiza tempo e encurta distâncias. Mas se o atalho fosse bom, a gente não precisava do caminho. E quase toda falta ética é uma forma de acelerar os resultados, de trocar o longo prazo pelo curto.

Só que essa troca custa a sua reputação, sua imagem, sua consciência. Se você consegue colocar um preço nisso, certamente esse preço é bem baixo.